De médico e louco…

 

De médico e louco todo mundo tem um pouco. Por isso, muita gente não resiste à tentação de receitar um remedinho. É remédio natural, um comprimidinho para dor ou azia, o medicamento que a vizinha tomou quando caiu de cama com gripe, ou aquele famoso que se não fizer bem, mal não faz.

 

Essa prática comum não só entre os brasileiros está cercada de sérios riscos. Muitos dos tratamentos prescritos por pessoas não capacitadas podem ser extremamente perigosos. Todo o remédio pode apresentar efeitos colaterais indesejáveis e provocar problemas graves de saúde.

 

Autoria de Dr. Anthony Wong - Médico pediatra e toxicologista no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo

 

Diferença entre remédio e veneno está na dose

 

Todos os medicamentos têm efeitos colaterais ou há remédios sem essa característica?

 

Wong – Há uma frase de Paracelso, um famoso cientista suíço do passado, que ajuda a clarificar esse assunto: “Não há nada na natureza que não seja venenoso. A diferença entre remédio e veneno está na dose de prescrição”. A água, por exemplo, pode ser tóxica. Os afogamentos são causados por excesso de água e ela é um elemento de considerável importância nos casos de edema cerebral e pulmonar.

 

Seguindo a mesma linha de pensamento, por estranho que pareça, o veneno mais perigoso do mundo, a toxina botulínica, é usado hoje com efeitos terapêuticos e estéticos no botox.

 

Vale, então, o alerta para as pessoas que consideram inócuos os analgésicos e os antiinflamatórios porque a maioria é de prescrição livre. O ácido acetilsalicílico (AAS) indicado nos casos de reumatismo e para prevenir problemas cardíacos, se usado na vigência de certas viroses infantis, pode precipitar uma lesão hepática grave.

 

Vamos enfatizar essa informação porque é comum as mães darem AAS aos filhos com febre. Por que não se deve dar AAS para as crianças na suspeita de gripes, resfriados, varicela ou catapora?

 

Wong – Nas doenças febris, como a catapora ou varicela, e nas gripes fortes causadas pelo vírus da influenza, o AAS pode precipitar uma destruição maciça do fígado. Tanto isso é verdade que esse alerta foi transmitido aos pediatras do mundo inteiro e a incidência dessa complicação caiu, só nos Estados Unidos, de 1000 para 26 casos/ano.

 

Além disso, apesar de ser convenientemente indicado no tratamento do reumatismo e na prevenção de problemas cardíacos, pessoas que foram operadas do coração e estão tomando anticoagulantes dicumarínicos não devem tomar doses excessivas de aspirina porque a recuperação se tornará mais difícil uma vez que o AAS é uma das causas mais importantes de sangramento gastrintestinal.

 

Retirado do site do médico Drauzio Varella