Em busca de um socialismo mais profundo

Segundo Carlos Trejo, cônsul de Cuba
Em Cuba, ninguém
deseja o retorno ao capitalismo. O que o povo quer é um socialismo melhor e
mais profundo. As palavras de Carlos Trejo, cônsul cubano
Em entrevista ao
Brasil de Fato, o diplomata reconhece (e celebra) o fato de que os cubanos
tenham inúmeras críticas aos dirigentes e aos rumos do regime, mas, sempre, com
um espírito de aprimoramento. “O cubano sempre acreditou na necessidade de
renovação constante. Em Cuba, começamos a renovação em 1959, e não parou.
Continua mudando, aperfeiçoando. E vamos seguir assim”. Leia, a seguir, trechos
da entrevista.
Brasil
de Fato – Passados 50 anos do triunfo da Revolução, quais são seus principais
legados?
Carlos
Trejo –
A primeira conquista foi o resgate da memória histórica do país, de suas lutas.
Em segundo lugar, o cubano deixou de se sentir um cidadão de segunda ou
terceira classe. A dignidade cubana é tão grande que até aqueles que decidiram
deixar o país não aceitam imposições. E, quando chegam a países capitalistas,
querem se projetar como se estivessem
Nesses
50 anos, quais foram principais obstáculos, tanto internos quanto externos?
Internamente, foi o subdesenvolvimento que
o país herdou. Quando a Revolução chegou ao poder, perto de 30% da população
era analfabeta, 25% era analfabeto funcional, havia um desemprego gigantesco...
Por conta desse cenário, a primeira decisão do governo revolucionário foi fazer
a campanha de alfabetização, tirar as pessoas da escuridão. A mulher era
basicamente objeto de satisfação do homem. Havia o jogo, a droga. As principais
figuras da máfia americana estavam em Cuba, e eram proprietárias de cassinos.
Um dos principais problemas que nós tivemos, já em 1959, 1960, foi que, dos
seis mil médicos que havia em Cuba, três mil foram embora estimulados pelos
EUA. E havia uma dívida social enorme com a população: a expectativa de vida
estava abaixo de 60 anos. A pobreza era enorme, principalmente no campo. Outra
dificuldade foram as tentativas dos EUA de evitar o triunfo da Revolução
Cubana. Nosso povo nunca teve paz para traçar seu caminho para o
desenvolvimento. Afortunadamente, estabelecemos relações amistosas com o campo
socialista. É claro que havia diferentes pontos de vista, mas as relações eram
muito respeitosas. A dificuldade foi quando o bloco socialista, com quem Cuba
tinha 80% do seu comércio, caiu. Os americanos aproveitaram para reforçar o
bloqueio. Ficamos na pior situação de toda nossa história.
Com
relação à condução do processo revolucionário em Cuba, quais foram as decisões
equivocadas?
O entusiasmo do país com o avanço rápido
que a sociedade cubana estava tendo. Achávamos que o socialismo estava na
esquina. E começamos a implementar muita coisa do socialismo profundo, quando
ainda não tínhamos conquistado algumas coisas importantes. A gratuidade, por
exemplo. Claro que é importante ter saúde, lazer, cultura de graça, mas tinha
muita coisa que era dada gratuitamente, como roupa e comida. Mas o essencial
era a necessidade de transformar a realidade econômica e social do país. E, para
se desenvolver, é necessário criar um capital humano forte. Isso foi criado. A
certeza dessa decisão aparece hoje em seus projetos. (Leia mais na edição 304
do Brasil de Fato).
Igor
Ojeda e Tatiana Merlino – Jornal Brasil
de Fato