CUT defende redução de juros, mais estímulo à agricultura familiar e combate ao cartel de fertilizantes

 

Frente à “inflação importada” causada pela especulação internacional com os alimentos, a executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores, reunida nesta sexta-feira em São Paulo, elencou uma série de propostas para fazer frente ao aumento de preços dos produtos alimentícios, que penaliza mais quem ganha menos.

 

Conforme levantamento da Subseção Dieese da CUT nacional, no Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), verificado entre junho de 2007 a maio de 2008, totaliza 5,58%. No entanto, considerando-se alguns itens relacionados à alimentação, como a carne, o feijão, o leite, o trigo e o óleo, as variações oscilaram forte: entre 20% e 100%. “Os assalariados de menor rendimento estão entre os mais atingidos com esta aceleração inflacionária, pois é grande o peso dos alimentos sobre sua renda. A cesta básica no município de São Paulo, medida pelo Dieese, mostra um aumento de 30,83%, entre julho de 2007 a junho de 2008”, aponta o estudo, que reforça a necessidade da valorização dos pisos salariais neste segundo semestre, bem como os benefícios de alimentação/refeição e as cestas básicas, que devem ser corrigidas por índices que expressem esta variação.

 

Entre as medidas debatidas pela CUT para fazer frente a esses ataques especulativos estão a redução das taxas de juros, o combate ao cartel transnacional de fertilizantes – responsável por 40% do custo total de produção – e mais estímulos à agricultura familiar – que tem por prioridade o abastecimento do mercado interno. Os dirigentes também alertaram para a necessidade da garantia de preços mínimos para o produtor, da construção de silos e da formação de estoques reguladores para fazer frente à ação dos especuladores, que têm concentrado sua ação no setor após o início da crise imobiliária norte-americana.

 

Se a inflação é importada, e se concentra essencialmente nos preços dos produtos agrícolas, destacou o presidente da CUT, Artur Henrique, a solução do problema está no fortalecimento de políticas públicas, de Estado, que diminuam a nossa dependência externa, aumentem o poder de consumo e expandam o mercado interno.

 

Como na próxima quarta-feira, 23 de julho, haverá nova reunião do Copom (Conselho de Política Monetária), onde será debatida a nova taxa de juros, a CUT alerta para os efeitos nocivos de uma possível majoração, lembrando que seria um tiro no pé do crescimento, pois reduziria os níveis de atividade, retraindo investimentos e transferindo mais renda do setor produtivo para a especulação, “num ciclo vicioso”.

 

ALERTA - “Dois efeitos macroeconômicos que resultam da elevação dos juros merecem especial atenção: a desorganização das contas externas e o aumento da dívida pública. No primeiro caso, porque o aumento da taxa de juros interna atrairá um volume ainda maior de capitais especulativos para o país, agravando a sobrevalorização da moeda nacional, e tendo como conseqüência a redução da balança comercial e o aumento do déficit em transações correntes. O segundo efeito – o crescimento da dívida pública – é tão desastroso quanto o primeiro: um ponto percentual de crescimento nas taxas de juros é suficiente para que o Estado Brasileiro desembolse com os juros da dívida próximo ao que se gasta com o orçamento do Programa Bolsa Família no período de um ano”, aponta o documento aprovado pela executiva nacional. Para a CUT, a somatória destes efeitos redundaria em redução do nível de emprego “que nos últimos anos vem apresentando recuperação, com os trabalhadores sendo penalizados pela queda do seu rendimento e pela queda do emprego”.

 

Diante disso, a executiva nacional elencou algumas propostas: intensificar o movimento pela ampliação e democratização do Conselho Monetário Nacional, a fim de debater a política de metas de inflação e as diretrizes da política monetária e cambial; apoiar a adoção temporária de políticas de desoneração de impostos internos sobre itens como alimentos, sobretudo os de consumo popular, com a contrapartida da redução de preços, restrição às exportações, e de incremento da oferta, especialmente aquela da pequena agricultura familiar; e fortalecer a política de valorização do salário mínimo, de forma a recuperar efetivamente o poder de compra afetado pela aceleração inflacionária e garantir seu aumento real.

 

O debate contou com a contribuição das companheiras Carmen Foro, vice-presidente da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) e Elisângela Araújo, presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf), que reiteraram a importância da queda das taxas de juros e da ampliação dos incentivos ao setor, a fim de que os trabalhadores e trabalhadoras do campo consigam garantir alimento bom e barato para o conjunto da população.

 

Leonardo Severo – Central Única dos Trabalhadores – www.cut.org.br