Salário não basta
De
maneira ainda sutil, há uma mudança na pauta de reivindicações das categorias
organizadas do setor público e das estatais. As paralisações ocorridas neste
ano reforçam o padrão de o trabalhador não se contentar apenas com a reposição
da inflação, mas exigir uma maior cesta de benefícios.
A greve
dos Correios foi emblemática. Encerrada na segunda-feira 21, os carteiros
cruzaram os braços por 15 dias úteis. Arrancaram do governo o que queriam: um
adicional de 30% sobre os salários, a título de insalubridade, para os 43 mil
empregados que trabalham na coleta e distribuição externas. Outros 16 mil
receberão um bônus de 260 reais. Conseguiram mais: nem sequer terão os dias
parados descontados do contracheque. Será formada uma espécie de banco de horas
a ser utilizado no futuro.
Há
vários outros movimentos em curso, como o das agências reguladoras, o da
Federação Nacional dos Estivadores e o da Federação Única dos Petroleiros
(FUP). O que explica a ressurreição de exigências mais amplas é o aumento da
oferta de empregos no País. “Queremos uma carreira. Até pela importância do
nosso trabalho em áreas estratégicas”, diz Luiz Castilhos, do Comando Nacional
de Greve das Agências Reguladoras.
Existe
espaço econômico para tais demandas, por enquanto. De acordo com o Cadastro
Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, em
junho houve um saldo líquido de criação de vagas de 309 mil, a maior da série
histórica do governo. No primeiro trimestre deste ano, já foram abertos 1,361
milhão de postos, ante 1,095 milhão do mesmo período de 2007.
Trata-se
do contágio positivo no setor público do crescimento do setor privado. Na
terça-feira 22, assembléias de funcionários de agências reguladoras em todo o
País votaram pela retomada da greve, iniciada em 30 de junho e interrompida em
11 de julho, para que as negociações com o Ministério do Planejamento
retomassem seu curso. Curso que não resultou em acordo.
O
governo propôs instituir uma agenda formal de negociação exclusiva para
negociar as alterações nas quatro tabelas de salários destacadas pelos
servidores, de forma a ser trabalhada num prazo máximo de 30 dias. A categoria
rejeitou a oferta, por ela se sustentar em remuneração indireta. “Não queremos
mais salários com subsídios, com penduricalhos. Queremos um montante só. Uma
reestruturação geral, porque somos instituições do Estado”, diz Castilhos.
A
explosão dos preços do petróleo e a importância estratégica da commodity para o
País fizeram agigantar o movimento dos petroleiros. A palavra de ordem entre os
funcionários é ruptura com os padrões passados de relacionamento com a
Petrobras. A estatal ofereceu uma participação de lucros de 12% sobre os
dividendos distribuídos aos acionistas, de forma linear, enquanto os
funcionários exigem um porcentual mais próximo ao teto de 25% contemplado pela
legislação. Segundo João Moraes, da Federação Única dos Petroleiros, há um
impasse e os petroleiros prometem uma paralisação geral, a partir de 5 de
agosto, se não houver uma melhora substancial nas ofertas da Petrobras.
Outro
movimento que vai a todo vapor é o dos trabalhadores portuários. Wilson
Barreto, presidente da Federação Nacional dos Estivadores, diz que são várias
as pautas que emperram as negociações. Entre elas, destaca a manutenção dos
portos públicos, o cumprimento da legislação quanto ao uso de mão-de-obra
avulsa e a viabilização de um sistema de aposentadoria que contemple todos os
trabalhadores do setor.
A festa,
contudo, pode estar próxima do fim. A decisão do Comitê de Política Monetária
(Copom) do Banco Central na quarta-feira 23 vai frear o desenvolvimento do
País. Por unanimidade, o comitê elevou a taxa básica de juro em 0,75 ponto
porcentual, para 13% ao ano. E não deu sinais de quanto vai perdurar o período
de aperto monetário.